Por Barb Wingard e Jane Lester

Este é um trecho do livro “Contando as Nossas Histórias de Maneiras que nos Tornam Mais Fortes” (Dulwich Center Publications, 2001)

Como povos indígenas deste país, enfrentamos tantas perdas devido à injustiça no passado e no presente. A presença do “luto” está conosco há muito tempo. Agora estamos buscando maneiras de falar sobre o luto que sejam consistentes com nossas maneiras culturais de fazer as coisas. Estamos nos lembrando daqueles que morreram, estamos honrando os caminhos espirituais indígenas e estamos encontrando formas de luto que nos unem. Estamos contando nossas histórias de maneiras que nos tornam mais fortes. Lidar com o nosso luto e com todas as perdas que sofremos, não se trata só de seguir em frente e esquecer. É sobre lembrar do nosso povo e leva-los conosco para onde formos. Eu perdi um irmão, meu pai, minha avó e acredito que eles ainda estão comigo. Eu carrego muitos deles. Eu os reconheço. Nós, povos aborígines, sofremos muitas perdas. Às vezes, parece que estamos nos movendo de uma morte para outra. Nosso povo fica tão cansado. Às vezes, é demais ir a mais um funeral. Precisamos simplesmente encontrar maneiras de nos lamentarmos juntos, porque é muito difícil fazer isso sozinho.

Lembro-me de conversar com um jovem aborígine em Murray Bridge no final do ano passado. Houve muitas mortes em sua família e, recentemente, ele foi diagnosticado com uma doença mental. Eu me encontrei com ele porque a equipe de saúde mental havia dito: “Você gostaria de ver Tia Barb para falar sobre algumas dessas coisas?”

Nós nos sentamos no gramado e fizemos nossa primeira conexão. Não chamamos isso de aconselhamento, nós apenas o chamamos de conversando juntos sob as árvores. Ele começou a compartilhar histórias sobre tantas mortes – todos os tios morreram e o pai – houve uma após a outra. Ele falou de como ele acredita que sua doença veio por causa do luto.

O ambiente e o modo como estávamos sentados faziam com que ele ficasse à vontade para conversar. Como ele falou sobre todas as pessoas que faleceram, nós os reconhecemos em silêncio.

Ele é um jovem brilhante. Terminou os estudos e tem grandes planos de ter seu próprio negócio. Me mostrou como vai fazer isso em etapas. Ele também me mostrou um memorial em que ele está trabalhando, para todos aqueles que faleceram e reconheceu coisas especiais sobre cada indivíduo. Encontrou um significado para cada um deles e está pintando cada um deles com uma imagem diferente. É um belo memorial. Ele também está analisando muitos aspectos culturais de suas vidas – refletindo sobre tudo o que aconteceu nessa terra e como muitos dos problemas atuais estão relacionados ao que aconteceu no passado.

Quando você fala muito sobre o passado, as pessoas olham para você como um radical – eles acham que você está tentando criar problemas. Há aqueles que dizem: ‘Temos que esquecer o passado e seguir em frente’. Isso é bom até certo ponto, mas acho que temos que reconhecer os eventos que aconteceram no passado e que tiveram um impacto sobre nossos avós, nossos pais e, quer reconheçamos ou não, sobre nós mesmos. Quando as pessoas dizem “esqueça o passado”, elas nos pedem para deixar muito para trás. Eles estão nos pedindo para abandonar nossos velhos. Não podemos seguir em frente e deixá-los para trás – precisamos trazê-los conosco para onde formos.

Uma parte da narrativa das pessoas aborígenes é que nos apegamos aos nossos entes queridos que não estão mais aqui. Nossos mais velhos são a quem nós pertencemos. Através deles nos identificamos. Quando uma pessoa aborígene conhece outra pessoa aborígene, trabalhamos para saber se nos conhecemos através de nossos parentes. Eu posso não conhecer seus pais, mas quem eram os pais deles? Nós constantemente refletimos e nos lembramos dessas pessoas.

Todas as minhas histórias são através da minha avó. Todo mundo sabe dela e de seus filhos. Agarrar-se a essas pessoas de idade faz parte de nossa força. Faz parte do nosso contar histórias. Eles são tão lembrados que é como se ainda estivessem conosco.

Quando um povo tem tantas perdas quanto tivemos, não há tempo para esquecer e seguir em frente. É hora de lembrar, ficar ligado ao nosso passado e presente. Não nos esqueceremos do nosso povo e não esqueceremos o passado. Temos que reconhecer e continuar reconhecendo tudo o que aconteceu neste país.

Há trinta e cinco anos atrás, eu tinha quinze anos e era o ano de 1964. Naquela época havia um Ato de Aborígines, onde alguns aborígenes recebiam uma isenção que nos permitia misturar com a comunidade mais ampla, mas também indicava que deixaríamos de ser aborígines.

Este ato impediu que muitos do meu povo retornassem aos seus lugares de nascimento nas missões. Houve também um ato de vadiagem que impediu que pessoas de diferentes raças se reunissem. Isso incluiu a mistura do nosso pessoal com os nossos amigos brancos. Naquela época, nós nem éramos cidadãos deste país. Isso não aconteceu até 1967.

Muitas das nossas perdas foram injustas e é difícil lidar com isso. Perdemos muito do nosso pessoal bem antes do tempo deles. Muitas das nossas mortes não foram naturais – por exemplo, mortes em custódia. É trágico pensar que estamos perdendo nosso povo tão jovem.

Quando meu pai morreu, ele tinha trinta e nove anos e estava há uma semana do seu quadragésimo aniversário. Para nós, esse é um evento trágico, mas é comum. Pessoas como eu, que estão na casa dos cinquenta, contamos nossas bênçãos por estar aqui a cada dia. Dizemos uns aos outros como temos sorte de ainda estarmos vivos. Nós não achamos que a vida está garantida.

É importante para nós, como povo aborígene, estabelecer as ligações entre justiça e sofrimento. Precisamos das injustiças dirigidas para que possamos lamentar nossas perdas. Precisamos que nossas histórias sejam contadas e reconhecidas. Trabalhar com o nosso sofrimento dessa maneira é trabalhar pela justiça.

Os aborígines têm muitas maneiras diferentes de lidar com o luto. Muitas vezes, quando as pessoas morrem, pode haver uma boa sensação de que seu espírito se encontrará com todos os outros espíritos, com outros entes queridos perdidos. Muitos aborígines também experimentam sinais de entes queridos que morreram. Ver pássaros em particular, por exemplo, é frequentemente experimentado como tendo um contato permanente com pessoas que morreram, um contato contínuo com seus espíritos.

Estamos tentando ouvir as histórias das pessoas para colocá-las mais em contato com seus próprios métodos de cura.

Meu pai morreu quando eu tinha 14 anos e lembro de tê-lo visto no caixão. Eu queria chorar alto, mas, o ambiente em que estávamos não permitia que eu sofresse no meu caminho. Eu acho que a sociedade européia encorajou formas particulares de luto e elas não se encaixam necessariamente para os aborígenes. Se você for a um funeral em uma comunidade aborígene, você poderá lamentar e chorar da maneira como deseja. Porém, nos serviços funerários tradicionais, parece haver muito silêncio para lamentar.

Eu não acredito que esse silêncio se encaixa na cultura aborígene. Eu não acredito que esse silêncio seja uma coisa boa. Eu particularmente não acho que seja bom para os nossos jovens. Algumas mulheres talvez tenham um mecanismo melhor porque têm uma rede na qual não têm medo de chorar. Mas gritos silenciosos podem durar anos e não serem ouvidos por ninguém. Eles podem consumir o espírito de uma pessoa.

Se todas as pessoas que estão chorando em silêncio pudessem encontrar maneiras de se unirem, ficariam surpresas com o quanto eles têm em comum e o quanto eles gostariam de compartilhar da história de outra pessoa.

Estamos tentando encontrar maneiras de reunir nosso povo que está enlutado. Camp Coorong, em 1994, foi uma tentativa para reunir todas as famílias aborígines da Austrália do Sul que haviam sofrido uma morte sob custódia. O documento que veio desse encontro foi chamado de “Recuperando Nossas Histórias, Recuperando Nossas Vidas” – “Reclaiming Our stories, Reclaiming Our livres” (1995).

Aqui está um trecho:

“Os aborígenes sempre tiveram seus próprios modos especiais de cura. Isso inclui formas de curar a dor da perda e da injustiça. Esses métodos de cura foram desrespeitados por pessoas não-aborígines, e os aborígines foram desencorajados a usá-los. Mas as formas de cura sobreviveram e estão desempenhando um papel importante na vida aborígine hoje. Conversar mais sobre as formas de cura é um caminho para recuperá-la e torná-las mais fortes.” (p.15)

Outro aspecto da reunião foi encontrar maneiras especiais de lembrar – formas de lembrar que tornam possível para as pessoas verem a si mesmas através dos olhos do ente querido perdido. Recentemente, lembro-me de falar com um homem que estava muito zangado com o pai dele que morreu há anos. Aos poucos, trouxemos o pai para as nossas conversas, deixamo-lo juntar-se a nós e com o tempo ele se lembrou de seu pai colocando os braços ao redor dele. Haviam tantas histórias que tinham sido esquecidas. Quando este homem gradualmente se viu através dos olhos de seu pai, ele se reconectou com o amor de seu pai. Enquanto ele contava as histórias desse amor, eu percebi que ele tirou um peso dele. Era quase como se a senhora raiva simplesmente saltasse do seu corpo e eu estivesse olhando para uma pessoa diferente. Sua expressão era tão suave quanto ele falou em querer compartilhar essas histórias de seu pai com seus irmãos e irmãs. Eu não sei onde  a senhora raiva foi, mas foi lindo vê-lo ir. Quando nós recuperamos as histórias que queremos contar sobre nossas vidas, quando nos reconectamos com aqueles que perdemos e as memórias que esquecemos, então nos tornamos mais fortes. Não estamos apenas contando nossas histórias de maneira diferente, mas também estamos ouvindo de maneira diferente. Estamos ouvindo as habilidades, os conhecimentos e as habilidades das pessoas. Nós já fomos golpeados tantas vezes que temos dificuldade em pensar em nós mesmos. Mas, estamos encontrando maneiras de reconhecer um ao outro e ver as habilidades que as pessoas têm e não sabem que possuem. Sem colocar pessoas em pedestais, estamos encontrando maneiras de reconhecer as histórias de sobrevivência de cada um.

Conversando com o luto

Nós também estamos procurando formas curativas de falar sobre nossas perdas. Uma maneira é externalizar o luto. Às vezes eu faço o papel do Luto e convido outras pessoas a me fazerem perguntas:

  • Qual é o seu nome?
  • Já nos conhecemos antes?
  • Sua presença tem estado com os aborígines há um tempo?
  • Como lidamos com você no passado?
  • Como podemos lidar com você agora?

Desta forma, começamos a falar sobre a jornada da história aborígene. Nós falamos da perda de terra, doenças, mortes, a geração roubada, a perda da linguagem – bem como as maneiras pelas quais os aborígenes responderam.

Para os aborígenes, de certa forma, convidar as pessoas para conversas sobre o luto  está encorajando as pessoas a se sustentarem. O luto nos convida a valorizar nosso povo e nossas histórias. Precisamos aceitar seus convites.

Precisamos conversar sobre nossa história com nosso próprio povo. Eu acho que as crianças que temos agora e os jovens, precisam conhecer nossas histórias, incluindo nossas histórias de perda e as de como lidamos com elas. De certa forma, isso é honrar nosso pesar.

Eu acho que as palavras “morte”, “elas foram”, “eu nunca vou vê-las”, deixam muitas pessoas se sentindo mal com a morte. A morte e a tristeza são muito assustadoras para algumas pessoas. Mas um dia nós também vamos morrer e nos unir aos espíritos.

Referência

Aboriginal Health Council of South Australia, 1995: ‘Reclaiming Our Stories, Reclaiming Our Lives.’ Dulwich Centre Newsletter, 1. Copyright © 2001 Dulwich Centre Publications

Copyright © 2001 Dulwich Centre Publications

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